Poucos vinhos italianos guardam tanta história numa só garrafa quanto o Brunello di Montalcino. Por trás do nome há uma família obstinada, garrafas escondidas da guerra, um escândalo que abalou o mercado e regras de envelhecimento que pedem paciência a todos, do produtor ao consumidor. A seguir, reunimos sete curiosidades que ajudam a entender por que esse tinto toscano é tão respeitado.
1. “Brunello” já foi tido como uma uva à parte
O nome vem de bruno, palavra italiana para marrom ou escuro. Em Montalcino, “Brunello” era o apelido de uma uva que muitos acreditavam ser uma variedade própria. Em 1879, porém, uma comissão ampelográfica de Siena concluiu que se tratava de Sangiovese. O apelido sobreviveu e acabou batizando o vinho. Já a forma de bagas maiores cultivada na região costuma ser chamada de Sangiovese Grosso.
2. Um vinho nascido na contramão da moda
Em meados do século XIX, a estrela de Montalcino era o Moscadello, um vinho doce. Clemente Santi já colhia prêmios com seus tintos em exposições agrícolas, mas foi o neto, Ferruccio Biondi-Santi, quem levou a ideia adiante. Ele selecionou um clone de Sangiovese e passou a vinificá-lo sozinho, numa época em que o costume era misturar várias uvas, inclusive brancas. O objetivo era claro: um tinto capaz de envelhecer por muitos anos. A safra de 1888 é considerada o primeiro Brunello moderno. Ferruccio morreu em 1917 e, em 1932, uma comissão interministerial o reconheceu oficialmente como o “inventor do Brunello”.
3. Garrafas emparedadas para escapar da guerra
No início da Segunda Guerra Mundial, Tancredi Biondi-Santi, filho de Ferruccio, mandou emparedar na adega as melhores safras da família para protegê-las dos saques. Entre elas estavam garrafas da lendária colheita de 1888. Algumas resistiram até hoje: a casa ainda guarda exemplares desse primeiro Brunello, raridades praticamente sem preço.
4. Só Sangiovese, por lei: uma regra que já virou caso de polícia
O Brunello di Montalcino deve ser elaborado com 100% Sangiovese. Em 2008, essa exigência esteve no centro do escândalo que a imprensa italiana apelidou de “Brunellopoli”. As investigações levantaram suspeitas de que alguns produtores teriam usado outras uvas, mais baratas, para aumentar a produção. Vinhedos foram isolados, centenas de milhares de garrafas acabaram apreendidas e os Estados Unidos, um dos principais mercados do vinho, anunciaram que só aceitariam lotes com laudo laboratorial que comprovasse 100% Sangiovese. A resposta da região veio nas urnas: os produtores votaram por manter a regra, e apenas 4% defenderam mudá-la.
5. A paciência está escrita no regulamento
As regras da denominação estão entre as mais rigorosas da Itália. Pelo regulamento atual:
- o vinho precisa passar ao menos dois anos em madeira e quatro meses em garrafa;
- só pode ser vendido a partir de 1º de janeiro do quinto ano após a colheita;
- na versão Riserva, o mínimo em garrafa sobe para seis meses, e o lançamento fica para o sexto ano.
Na prática, um Brunello da safra 2020 só pôde chegar ao mercado em janeiro de 2025. Por tradição, muitos produtores usam grandes tonéis de carvalho da Eslavônia, que marcam menos o vinho do que as barricas pequenas e deixam a fruta e a acidez da Sangiovese em primeiro plano.
6. Um dos primeiros vinhos DOCG da Itália
Em 1980, o Brunello di Montalcino recebeu a DOCG (Denominação de Origem Controlada e Garantida) e se tornou um dos primeiros vinhos italianos a alcançar o nível máximo da classificação do país. Pouco antes, em 1967, 25 produtores haviam fundado o Consórcio do Vinho Brunello di Montalcino. Desde então, o crescimento impressiona: hoje o consórcio reúne mais de 200 engarrafadores.
7. Cada safra ganha um azulejo na prefeitura
Desde a safra de 1992, o Consórcio encomenda um azulejo de cerâmica para cada colheita, com o ano e o número de estrelas atribuído a ela. As peças são criadas por personalidades das artes, do esporte e do espetáculo e ficam expostas na parede da prefeitura de Montalcino. A safra 2020 recebeu cinco estrelas, a nota máxima, e seu azulejo foi desenhado pela nadadora olímpica Federica Pellegrini, com uma fênix como símbolo de renascimento. Foi um ano quente, e a crítica internacional destacou vinhos suculentos e equilibrados, de acidez fresca.
Onde encontrar
Se essas histórias despertaram a vontade de abrir uma garrafa, a Invinho traz o Brunello di Montalcino D.O.C.G. da Sasso di Sole, produtor de Montalcino, justamente da safra 2020. É um 100% Sangiovese Grosso envelhecido em grandes barris de carvalho da Eslavônia, com 14% de álcool e fiel ao estilo clássico descrito acima.
Na taça, exibe cor vermelho-rubi intensa com reflexos granada e aroma expressivo, floral, frutado e condimentado. Na boca, é seco, quente, macio, tânico, encorpado e persistente. Segundo o catálogo da Invinho, o rótulo recebeu 93 pontos de James Suckling e 95 de Luca Gardini.
Como servir
- Temperatura: 18 °C.
- Harmonização: carnes vermelhas, carnes de caça, queijos envelhecidos, aves nobres e pratos com molhos intensos.
- Preço: R$ 350,00 (garrafa de 750 ml).
Para conhecer outros vinhos da mesma vinícola, vale começar pelo Rosso di Montalcino D.O.C., o “irmão mais novo” do Brunello, feito na mesma região e lançado mais cedo, ou pelo Orcia Sangiovese D.O.C..
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